O Senhor Jehovah – SENHOR
שמע ישראל יהוה אלהינו יהוה אחד

“Ouve, Israel: o Senhor  nosso Deus, é o único Senhor,” Deuteronômio 6:4.

Na Bíblia em português há três maneiras de se escrever a palavra  “senhor”. Algumas pessoas procuraram e descobriram o porquê da diferença e outros jamais a perceberam.   Às vezes está escrita no Antigo Testamento e refere-se ao criador do mundo como “Senhor” e outras vezes Senhor.  E por quê?  E ainda em outras ocasiões acha-se senhor.

Observou bem?  Senhor com letra maiúscula, senhor com letra minúscula e ainda Senhor com todas as letras em versalete.  Reparou?  Veja que logo no primeiro livro da Bíblia, confira Gênesis 2:4 onde se encontra Senhor.  Depois em Gênesis 15:2 encontra-se Senhor.  E finalmente o exemplo de senhor com letra minúscula em Gênesis 23:11.  Como podemos organizar tudo isto?

Começo com o mais simples, a saber, Senhor ou senhor.  Nos dois casos a palavra no hebraico é a mesma, אדני (adonai).  Quanto ao hebraico não há distinção, pois todas as letras no hebraico bíblico estão escritas em letras maiúsculas.  Não se usa letras minúsculas nos impressos.

Na Bíblia, o sentido é duplo.  Assim… a bendita concordância foi logo consultada.  Em Gênesis 24, o vocábulo “senhor” é usado repetidas vezes ao referir-se ao homem que procurava uma mulher para o filho de Abraão.  Este homem, por respeito, chamou seu patrão de “senhor” com o sentido de mestre a quem era responsável, conforme vv. 9,12,14, 7,35 , e mais nove vezes.  Obviamente este homem era empregado de Abraão e reconheceu isto pela forma de falar com seu mestre.  Talvez a palavra patrão seja uma boa forma de expressar este sentido.

Não é difícil compreender como se deve pensar quando se encontra a palavra “Senhor” (letra inicial maiúscula).   Na ortografia moderna foi determinado distinguir entre senhor — o divino, e, senhor — o terráqueo.  Adotou-se então a letra maiúscula Senhor em referência a Deus, enquanto senhor com letra minúscula se usa em outros casos.

Resta então o uso da palavra com todas as letras em versalete, Senhor.  Surpresa entre as surpresas, pois não se refere aos dois casos anteriormente apresentados.  Senhor representa o tetragrama por ser uma palavra feita de quatro letras (como tetracampeão) no idioma hebraico, a saber, יהוה (jhvh ou yhwh).  O hebraico não foi escrito originalmente com as vogais.  Porém a ortografia da língua portuguesa exige o uso de vogais.  Assim sendo, esta palavra hebraica seria traduzida ou por Jehovah ou Yahweh.  Daí então a pergunta lógica, por que isto não se encontra nas traduções brasileiras?  Pensou bem!

Para o bem ou mal dos israelitas, por algumas centenas de anos antes de Cristo mal se interpretavam textos como Êxodo 20:7 ou Levítico 24:11. Este nome era considerado tão sagrado que nem deveria ser pronunciado verbalmente.  Com o passar dos séculos perdeu-se a maneira de pronunciar este tetragrama.  De fato o hebraico bíblico decaiu tanto no uso, que muitos nem mais podiam ler com facilidade o Antigo Testamento, pois os livros deste, não continham vogais,  Os massoretas no sétimo século d.C. inventaram símbolos vogais para preservar a leitura hebraica.  Porém, até então, ninguém mais lembrava-se das vogais originais do tetragrama.  E reinava ainda a ideia de que não devia ser pronunciado, e sendo assim, isto não era importante para estes homens.

Mas ainda resta a pergunta, por que não se acha Jehovah/Yahweh nas mais importantes traduções de língua portuguesa ou no idioma inglês?  Há duas explicações:  Os da tribo de Judá ao voltar do cativeiro cultivaram a ideia de que o nome era tão sagrado que o proibiram ser pronunciado.  Nas leituras públicas ao encontrar o tetragrama simplesmente diziam “Shema” (hebraico significando “nome”).  Outros ainda usaram  “Adonai” (a palavra acima descrita) ao encontrar a tetragrama.  Daí então quando o Antigo Testamento foi traduzido da língua hebraica para a grega os tradutores utilizaram a palavra “kurios” (Senhor). Dessa forma foi registrado nas traduções ocidentais.

Porém, há outra escola que diz que ao “traduzir” o tetragrama isto poderia ser uma agressão ofensiva para a comunidade israelita. Por essa razão, os tradutores procuraram achar meios para indicar quando a Bíblia hebraica usava o tetragrama sem ofender os israelitas.  E adotaram o uso de “Senhor” em todas as letras maiúsculas.  Sei que foi este o caso da Nova Versão Internacional. Lembro-me de quando nosso professor Randy Cook, do Seminário Batista Regular em São Paulo, que participava da elaboração da versão NVI retornou após uma semana de trabalhos todo inconformado, pois fora decidido traduzir o tetragrama.  E ele, sendo interessado na evangelização da comunidade israelita, montou uma tese para argumentar contra a decisão.  Evidentemente, convenceu seus colegas, pois voltaram atrás seguindo a prática adotada por séculos. E ficou assim mesmo Senhor  para o tetragrama.

Sem entrar nos pormenores técnicos saiba que o tetragrama Senhor é derivado do verbo “ser”.  Por essa razão, Deus respondeu a Moisés: “Eu Sou o que Sou” (do verbo ser).  Indicando dessa maneira que Deus é ser eterno, e que Ele existe.  Nessa conversa Deus assegurou a seguinte promessa: “Eu serei contigo.” O Seu nome Senhor deve ser ligado a esta promessa — da presença dele na vida de Moisés e de todos os seus ascendentes.  O uso do tetragrama os lembraria para sempre de que o Deus eternamente existente é também o Deus que iria lhes acompanhar.  Por seis mil oitocentos e vinte e três vezes Deus se identificou como Senhor no Antigo Testamento, lembrando-os de que Ele era o eterno Deus, sempre com eles.

À luz destas considerações, observe atentamente como o vocábulo “senhor” está sendo utilizado na Bíblia de língua portuguesa e use estas informações ao interpretá-lo.

Ricardo Sterkenburg, dr.
Diretor jubilado do Seminário Batista Regular em São Paulo.