Texto: João 1:11

Depois de um hiato de reflexão sobre o valor desta matéria e o tempo que tenho disponível para cumprir meu dever, volto para o website de Ministérios RBC. A Bíblia que Deus nos deu foi escrita dentro das leis gramaticais. É mister, a meu ver, prestar bem atenção nas regras gramaticais. Há um trecho, considero eu, que não está sendo bem compreendido, o qual encontra-se no livro de João 1:11, “Veio para o que era seu e os seus não o receberam.”

Desejo salientar as palavras “seu e seus”. Os tradutores as traduziram com dificuldade. Em primeiro lugar, João, originalmente, escreveu os dois pronomes no plural. E também deixou-se de refletir o gênero destes pronomes o qual amplia um pouco o significado deste trecho. João, como no idioma português, teve o recurso do masculino, feminino e ainda mais um, a saber; o neutro (algo parecido com isso, isto, tanto, quanto, tão, tal, etc).

O primeiro pronome deveria ter sido traduzido como um neutro plural. Comumente traduzido com “coisas” ou seria Jesus veio para “suas coisas”. O segundo pronome é um pronome masculino plural que, em parte, indica o gênero masculino, porém pode também contemplar ambos os gêneros. Por exemplo, podemos falar dos membros da igreja. Isso descreve uma pluralidade sem reflexos genéricos, tanto homens como mulheres. É um pouco difícil achar uma tradução com gênero plural masculino, sendo ainda plural. Seria parecido aos seus povos, congêneres ou consanguíneos para indicar o povo dele, tanto mulher como homem.

Agora temos que determinar o significado atribuído para este vocábulo grego, ιδιος para o qual temos várias palavras portuguesas “idioma, idiopatia, etc. Este vocábulo grego encontra-se 113 vezes no Novo Testamento. A maioria das vezes os tradutores o traduziram como “seu(s) sua(s)” (32 vezes); ou “próprio(s) própria(s)” (51 vezes) na Bíblia em português. Então, o significado propriamente dito, seria “…o que é seu ou o que é seu próprio”. Assim indicando o domínio de algo que pertence a palavra em si. As palavras “seu/sua” são pronomes possessivos que refletem perfeitamente este significado. O outro vocábulo “próprio” também demonstra domínio, como “a quem pertence a”.

A palavra é usada para indicar uma singularidade ou ligação particular ao substantivo que se qualifica. Repetidas vezes encontramos expressões na Bíblia como: “seu próprio corpo, seu próprio marido, suas próprias ovelhas, seu próprio idioma, etc.” Chega então o momento de traduzir estes vocábulos no livro de João 1:11: “Veio para suas próprias coisas e os seus próprios congêneres não o receberam”, (parecer do escritor).

Quais são as coisas que pertenceram a Ele? Tudo que se acha na Terra Santa, exceto os seres humanos. Paulo nos faz lembrar que tudo foi criado para ele, “…pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra […]. Tudo foi criado por meio dele e para ele” Colossenses 1:16. As árvores e seus frutos, os rios e mares até os edifícios pertencem a Jesus. Veja o que Ele disse sobre o templo, “…não façais da casa de meu Pai casa de negócio” João 2:16. Foi dito quando purificou o templo dos negociantes. Em seguida, no mesmo livro Jesus disse: “Tudo quanto o Pai tem é meu” João 16:15. Três vezes Jesus referiu-se ao templo como: “A casa do meu Pai” Mateus 21:13; Marcos 11:17 e Lucas 19:46.

No Antigo Testamento, nos dias da distribuição da Terra Prometida, Deus disse seguidamente: “…porque a terra é minha…” (Levítico 25:23). Veja ainda Levítico 26:4, “…eu vos darei as vossas chuvas e seu tempo; e a terra dará a sua messe, e a árvore do campo, o seu fruto”. É muito interessante como o autor da Bíblia, o Espírito Santo, preservou este conceito por ter usado este vocábulo no neutro plural, “suas próprias coisas”.

O segundo vocábulo “seus próprios congêneres” é logo entendido pelos conhecedores da Bíblia como o povo judaico. Muitos estudiosos da Bíblia logo pensam em Gênesis 12:2, “…de ti farei uma grande nação…”. Quando o templo de Salomão foi dedicado, Deus respondeu-lhe a oração chamando os presentes como “meu povo“. “…se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar…” 2 Crônicas 7:14. Na oração própria, Salomão chama Israel como o povo de Deus, “…teu povo de Israel… (6:33). No Novo Testamento, na oração de Simeão, Israel ainda está identificada como o povo de Deus “…para a glória do teu povo de Israel,” (Lucas 2:32). Esta expressão também se acha nos escritos do apóstolo Paulo, “…terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? Deus não rejeitou os Seu povo,” Romanos 11:1-2.

É claro então que João tem em vista o povo de Israel e as coisas na terra chamada “Santa”. Jesus “Veio para o que eram suas próprias coisas (tudo que pertencia à terra santa; seu terreno, suas searas, celeiros, o próprio templo) e os seus próprios compatrícios não o receberam” (João 1:11).

Doutor Ricardo Sterkenburg

Diretor Jubilado do Seminário Batista Regular em São Paulo